Em diversas partes do Sudeste Asiático, o som vibrante da natureza está sendo substituído por um silêncio inquietante em florestas que antes eram repletas do canto de aves. Anualmente, milhões de pássaros canoros são capturados para atender à demanda do mercado de animais de estimação e a competições que oferecem prêmios substanciais, como dinheiro e motocicletas. Essa prática está contribuindo para uma crise ambiental com consequências que podem ser irreversíveis.
O impacto das competições sobre os pássaros canoros
Na Indonésia, torneios de canto atraem um grande número de participantes, com eventos que podem contar com até mil aves em disputa. Os animais são julgados com base em critérios como afinação, volume, repertório e comportamento. Os prêmios são tão valiosos que vencer um campeonato pode representar a renda de vários anos, transformando pássaros em símbolos de status social e oportunidades financeiras.
A crença popular de que aves selvagens possuem cantos superiores leva à sua captura nas florestas. Muitas delas são aprisionadas por caçadores e transportadas em condições precárias dentro de caixas pequenas, canos ou garrafas. Estima-se que entre 30% a 80% dos pássaros não sobrevivem ao transporte, enquanto aqueles que escapam da morte ficam confinados pelo resto da vida.
Escala alarmante do comércio ilegal
A ilha de Java abriga uma das maiores populações de aves mantidas em cativeiro no mundo. As estimativas revelam que entre 66 milhões e 84 milhões de pássaros vivem em cativeiro na região, sendo que um terço dos lares possui pelo menos uma ave. Em toda a Indonésia, há uma possibilidade de até 90 milhões de pessoas possuírem entre 164 milhões e 187 milhões de aves retiradas da natureza.
Chris Shepherd, especialista do Centro para a Diversidade Biológica, considera o comércio indonésio como um dos mais intensivos globalmente. Das aproximadamente 1.800 espécies existentes no país, cerca de 20% já foram observadas em mercados comerciais, incluindo espécies protegidas e ameaçadas cuja distribuição é restrita a essa região.
Espécies ameaçadas de extinção
A União Internacional para a Conservação da Natureza identificou 52 espécies asiáticas gravemente impactadas pelo comércio ilegal. Dentre elas estão aves valorizadas por sua raridade, plumagem atrativa ou habilidades vocais excepcionais, características que elevam seus preços e tornam as populações menores ainda mais desejáveis para colecionadores.
- Mainá-de-asas-brancas: menos de 250 indivíduos na natureza.
- Pega-verde-de-java: pode haver menos de 100 exemplares selvagens restantes.
- Estorninho-de-bali: conhecido pela plumagem branca e pelo anel azul ao redor dos olhos.
- Bulbul-de-cabeça-palha: apreciado por seus duetos e habilidades vocais únicas.
Alexander Lees, biólogo especializado em conservação na Universidade Metropolitana de Manchester, alerta sobre o fenômeno denominado síndrome da floresta vazia. Nesse cenário preocupante, as florestas aparentam estar saudáveis enquanto suas populações animais desaparecem. A ausência das aves compromete funções ecológicas essenciais como dispersão de sementes, polinização e controle populacional de insetos.
Assista ao vídeo do canal do YouTube Planeta Aves, onde são apresentadas algumas das aves mais raras e à beira da extinção no planeta.
Ações dos centros de reabilitação frente à crise
O Centro de Resgate e Reabilitação Wak Gatak, fundado pela organização Planet Indonesia, acolhe aves resgatadas em Kalimantan Ocidental. Muitas dessas aves chegam ao centro debilitadas fisicamente devido à desnutrição ou ferimentos. De acordo com o veterinário Happy Ferdiansyah, entre 70% e 80% dos animais em estado crítico não sobrevivem às duas primeiras semanas após serem resgatados.
Aqueles que se recuperam passam por um processo rigoroso: quarentena, exames clínicos adequados e reabilitação em viveiros equipados com plantas e poleiros naturais. Quando demonstram estar aptos a viver sem interação humana, são libertadas gradualmente em áreas protegidas. Desde 2022, quase 3 mil aves pertencentes a 45 espécies passaram pelo centro, sendo que 348 retornaram ao seu habitat natural.
A urgência da redução da demanda
Embora os resgates sejam significativos, eles não conseguem acompanhar a velocidade das capturas realizadas. Especialistas enfatizam a necessidade urgente de uma fiscalização mais eficaz, proteção legal robusta, campanhas educativas voltadas para conscientização pública e alterações nas competições envolvendo aves. Um estudo recente realizado em 2023 analisou 305 projetos em 80 países e revelou que o apoio das comunidades locais aumenta em até 10% as chances de sobrevivência e reprodução dos animais devolvidos à natureza.
A única forma efetiva de conter essa crise é alterar a percepção social onde manter pássaros selvagens enjaulados deixe de ser visto como um símbolo de prestígio ou entretenimento. Cada compra ou participação em competições aumenta a pressão sobre populações já vulneráveis. É imperativo reduzir essa demanda urgentemente; embora uma floresta possa parecer verde aos olhos humanos sem o canto das aves, ela já terá perdido uma parte essencial da sua vitalidade.
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